Primeiro sonho
Desde que me dei por gente eu nunca havia tido um sonho. Sempre foram duas opções: ou um pesadelo (dos mais lights aos mais extremos), ou acordava sem lembrar-me de nada (uma opção menos frequente).
Nesta noite, o céu era azul e límpido, com o sol ao longe me observando alguns palmos acima do horizonte. Irradiava alegria e uma nostalgia carpe diem que me trazia paz e inquietação simultaneamente. Ao mesmo tempo que estava em paz comigo, precisava fazer algo, agir. Correr, gritar, saltar, o que seja. Prestes a explodir, olhei à minha volta, tal qual a câmera de um cineasta rodeia um personagem principal atormentado. Minha visão ficou turva e fiquei tonto. Meus olhos desceram até ao solo e percebi que estava cercado por um interminável rebanho de ovelhas brancas. Não se via mais o horizonte, mas sim os contornos ovinos que se estendia por todos os lados. Apesar de tudo, um silêncio... um silêncio mórbido no qual não se ouvia nem o assobiar do vento que soprava no campo aberto. Curioso era observar que, ao olhar para cima e para baixo, os animais pareciam nuvens caídas do céu e que eu permanecia de cabeça para baixo, em alguma nuvem, olhando para um vazio azul. Paradoxalmente, comecei a duvidar de onde estava. E óbvio, duvidei mais uma vez de quem eu era. Seria um teste? Máscaras, máscaras e máscaras. Acho que terei que convivê-las pra sempre.
De fato, os animais não eram apenas ovelhas. Observando-as com atenção (minha visão anterior parecia estar desfocada), eu percebi que elas não possuíam cabeças, mas sim girassóis, com seus núcleos grandes e pétalas curtas amarelas. O resultado de uma visão panorâmica do campo, estendendo-se até ao horizonte, povoado por estas criaturas era lindo. Esbocei um leve sorriso: enfim parecia que eu estava sonhando pela primeira vez na vida.
Eu me encontrava sozinho no meio destas criaturas, até que me percebi. Usava uma roupa meio caipira: calça jeans, camisa manga longa quadriculada (nem precisa-se dizer que era vermelha e preta... mas seria Flamengo ou Freddy Krueger???) e suspensórios. Só faltava o chapéu de palha. Ah, sim, claro, e segurava nas mãos uma foice. Ora, mas para quê uma foice? Para a colheita que estaria por vir.
Treinei uma vez, balançando a foice de um lado para o outro e logo em seguida desci-a ao nível do solo com força e velocidade. Como um pêndulo, ela zunia e rasgava o ar e tudo que encontrava. Sangue começou a jorrar. Flores-cabeças (ou cabeças-flores) começaram a saltar. Pernar, patas, lã, metades de ovelhas e órgãos voavam ao meu redor, enquanto eu caminhava e o sangue me encharcava. Eu sorria - mentira. Eu gargalhava e sentia um imenso prazer em mutilar e matar. Sentia o gosto do sangue e aquilo me fazia avançar cada vez mais rápido, freneticamente, até a exaustão. Até que despertei com um sorriso genuíno, daqueles que você expressa quando faz algo que realmente gosta. E eu gostei. Muito. Acordei feliz e aliviado.
O que para muitos seria um pesadelo, para mim foi um sonho, um sonho que não possuía há séculos... E isso me incomoda? Não, nem um pouco. Afinal, como dizia um sábio e "perverso" personagem histórico: "I do not see why man should not be just as cruel as nature..."


1 Comentários:
Espero que essas " Ovelhas " não usem crachá verde. Rsrs....
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